terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Meu Lirismo e Eu

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Se estava imersa em leitura ou em pensamentos ociosos quando me bateu à porta, não me recordo bem, mas me lembro claramente dos olhos do Lirismo quando o convidei a entrar.

Convidei-o para um café, mesmo que fosse noite, mas – talvez por sofrer de insônia, talvez por não lhe apetecer o amargo da bebida – meu caro amigo preferiu um chá, que lhe foi servido na louça delicada da atenção que dedicamos às presenças que nos são valiosas.

Conversamos pela primeira vez sem trocar uma palavra sequer: Eu e meus pensamentos. Ele com seus versos.

Fui me acostumando aos poucos com seus hábitos banais, como o tempo que gastava encarando a réstia de sol que penetrava a janela mesmo que fechada, ou a forma como parecia estranhamente mais vivo quando as nuvens acusavam a chuva.
Adaptei-me à criptografia de suas confissões e passei a ouvir com certa clareza o som imaginário de seu riso.
Apaixonei-me, enfim, por seus olhos de papel e sussurros de rasura.

Meu amigo era inconstante: ou me cheirava a doçura e saudade, ou me agulhava com revolta, derramando mágoas e reclamações.

E seus gritos ocasionais, curiosamente intercalados entre o doce e o satírico, foram aos poucos me conquistando e me envolvendo numa espécie de vergonhosa dependência. Nossas reticências foram aos poucos se tornando exclamações.

Me perdi entre seus versos inconcebíveis e parágrafos de mentira, regidos sem maestria por pensamentos tranquilamente revoltos e inegavelmente paradoxais.
O único problema de nossa relação sempre consistiu num certo conflito de egos: Eu dominava a Poesia, ou dominava ela a mim?

Seguimos assim por um tempo, dominando um ao outro mesmo que sem nos permitir ceder. Eu precisando de suas palavras e ele dos meus pensamentos; Eu escondendo suas rimas e ele meus sentimentos.
Ocultávamos um ao outro em nosso relacionamento escondido, e vivíamos bem dessa maneira.

Até aquela manhã – daquelas raras manhãs chuvosas – quando o Lirismo me deixou sob uma de suas ameaças temperamentais: Ou é exposto, ou não é mais. E aqui estou, com nosso romance injustificado e publicado, deixando que este amigo de longas datas grite seu abstracionismo e sua falta de sentido, pois algumas explicações limitam. E irritam. A nós dois.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Sobre o tempo

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Suspirou.

Estava pronta para mais um dos textos corriqueiros de final de ano, daqueles que sempre existiram para preencher espaços vazios e suprir a ausência de postagens que mais dia menos dia acabava ocorrendo em seu blog medíocre.
Tentou pensar em algo que fosse ao menos mais fácil de escrever, ou menos enfadonho durante a leitura: sem sucesso.

Pensou em 2011 como um todo, na tentativa de extrair qualquer comentário decente.
Suspirou novamente. E sorriu.

Tinha sido, sim, um ano repleto de bons momentos. Mas como não o ser? Afinal, 365 dias fornecem tempo de sobra para sorrir.
Fora também um ano decididamente difícil, mas as dificuldades têm lá seu ponto positivo: sempre saímos delas com a sensação de que aprendemos alguma coisa.

Pensou nas pessoas.
Não suspirou, mas sorriu.

Conhecera pessoas incríveis e se flagrou chamando de amigo quem há pouco não passava de um conhecido.
Também perdera pessoas incríveis, se permitindo olhar como mero conhecido quem há pouco era tão amigo.
Mas mantivera os melhores e, de alguma forma, estes fizeram com que cada segundo tivesse seu valor.

Tentou definir o período, e percebeu que se seu ano fosse música, hora tocaria blues, hora seria hardcore, e em alguns raros momentos ficaria em absoluto silêncio.

Pensou em si mesma.
Não suspirou.
Não sorriu.
Mas por algum motivo desenvolveu o mesmo texto inexpressivo de sempre narrado na terceira pessoa do singular.
Talvez se sentisse mesmo como outra pessoa.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Se você não repassar essa mensagem, você não tem coração!

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Na divindade da minha falta do que fazer, passeando através das horas livres no facebook nosso de cada dia, com uma breve colaboração de um falecido Orkut e um “inútil” Twitter, eis que percebo, talvez com certo atraso, que se para cada pessoa que compartilha a imagem de uma família pobre para mostrar que tem bom coração, um prato de comida deixasse de ser desperdiçado, a fome no mundo seria um problema bem menor.

O falso engajamento social surgiu em sua versão facilitada 2.0, onde o passaporte para a vida eterna é comprado em um clique de “compartilhar” em qualquer texto ou imagem que vão desde protestos contra políticos (repassadas por eleitores do Tiririca) até mensagens de adoração a Deus (envie isso para 15 pessoas em 3 segundos ou o fogo do inferno te encontrará). O resultado é uma piscina de demagogia e gente protestando contra a existência de uma realidade que provavelmente não conhece, e se conhece não move uma palha pra mudar.

Uma vez uma amiga, com muito mais talento na área da comunicação do que eu, resumiu em algumas poucas palavras tudo que eu tento dizer no post inteiro e, por isso, tomo a liberdade de reproduzir: “Prefiro mil vezes um alienado do que um falso engajado social”, o que não deixa de ser verdade, já que ambos fazem exatamente o mesmo esforço para mudar o mundo, com a exceção de que o primeiro não faz pose de humanitário e enche nossos murais e dashboards de correntes sociais.

Isso sem considerar os que, automaticamente, declaram aos quatro ventos que não têm preconceito algum, palavra que na concepção de muitos se resume exclusivamente em espancar gays na avenida paulista ou não estar a menos de cem metros de um negro.
São as pessoas que não tem preconceito, mas travam a porta do carro quando um menino de rua passa perto, olham torto pra quem não crê na mesma religião (se não tiver religião nenhuma então, desista!), acham que quem ouve rock é marginal e se for fã de Justin Bieber ou Restart não tem cérebro.

A verdade é que, no fim, é muito fácil ~se revoltar contra o sistema~ por trás de um monitor de tela plana, na segurança da sua casa e no conforto da sua poltrona enquanto trabalha aquele marketing pessoal de cada dia fingindo que se importa para evitar a dor na consciência no final do dia. Ou no final da vida.

E que Deus abençoe as criancinhas!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Sobre hiatus e dia do blog

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Uma data: 31/08.
Uma informação: Dia do blog, exatamente por esse motivo que você descobre quando interpreta os números 3108 em palavras.
Um comentário: Grande coisa.




E para celebrar a data e reafirmar sua inserção num blog como esse, onde tudo que chega ou é de péssima qualidade ou no mínimo atrasado, venho no dia primeiro de setembro, apenas para avisar que a data foi ontem e eu a esqueci completamente.
Há muito tempo atrás, numa terra distante, durante era de ouro da blogosfera em nossas vidas, quando a maioria das redes sociais não faziam tanto sucesso e a gente pensava em mais do que 140 caracteres, havia uma tradição - que por mais que ainda vogue, não possui mais o mesmo espírito - de que, nos dias 31 de agosto, cada blog indicaria outros endereços a serem lidos e, se possível, apreciados.
E, mesmo que o universo blogueiro não tenha mais aquele cheiro de café, piadas internas e noites mal dormidas que costumava ter, ainda me sinto na obrigação de não me abster da tradição de indicar, como em anos anteriores, o Que Diabos, como sobrevivente daquela época; o blog da Maíra (nas entrelinhas), por conter alguns dos melhores textos que já li; e o Ponto Nostalgia que, além de pertencer a um amigo incrível e responsável por este layout ao qual sou muito apegada, tem um pouco a ver com o clima do post.

A partir disso, usei o dia do blog como pretexto para tirar as teias de aranha dessa joça e tomar coragem para determinar um hiatus de verdade aqui.
Minha inspiração, que já não era tanta, parece ter esgotado completamente e a cada vez que penso no QN, por mais carinho que sinta por ele, o enxergo como um incrível desperdício de espaço.
Talvez eu não o reative, talvez volte amanhã com uma ideia de post e fingindo que isso foi uma pegadinha do malandro e que tudo sempre foi proposital. Talvez eu comece a postar alguns dos meus contos aqui só pra não perder a prática... Mas talvez ninguém nem venha a ler isso aqui.

de qualquer forma, a ideia é que o baralho seja fechado por um tempo, mesmo que não se saiba quanto, uma vez que não tive coragem de o enviar completamente para o limbo da blogosfera clicando no botão de "excluir este blog." (na verdade, cheguei a clicar, mas minha incrível determinação me impediu de confirmar quando a mensagem de "você tem certeza [...]" surgiu no meu monitor).
Sentirei falta de cada um destes naipes, por incrível que pareça. Até lá, ouso despedir-me com uma frase que me sempre me trará saudades: "Mal feito, feito."

sábado, 16 de julho de 2011

The end of an Era

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A segunda parte de Harry Potter e as relíquias da morte, que chegou aos cinemas na ultima sexta-feira (15), veio como muito mais do que um sucesso de bilheteria esperado. O filme, como ultimo da série que durou uma década, representou o fim de uma fase na vida de cada um que cresceu com ele e, sim, é de extrema importância ressaltar que este post foi escrito apenas pela garotinha de 8 anos que lia A Pedra Filosofal trancada no quarto.


J.K Rowling terminou por me ensinar muito mais do que o hábito da leitura. Com seu próprio universo, ela me mostrou minha própria paixão pelas palavras e a interferência disso na minha vida.


Suas histórias foram – e ainda são – para mim e certamente para outros milhões de fãs ao redor do mundo, um amigo que aparecia no momento em que eu mais precisava e que costumava me transportar para um mundo só meu quando aquele em que estava não parecia tão agradável.
Harry Potter também me deu ótimos momentos e foi o responsável pela minha aproximação com algumas das melhores pessoas que já conheci, algumas delas que provavelmente nem imaginam essa associação.


A partir disso, é natural se entristecer quando um amigo tão querido nos deixa.
Pela primeira vez em 10 anos não nos vemos esperando por mais nada, mas ainda assim unidos pelo vínculo eterno que esse tempo deixou. Olhamos ao redor e percebemos, talvez pela primeira vez, que as crianças que haviam ali cresceram e deram continuidade às suas vidas.


Deathly Hallows 2 marcou o fim de uma era, sim, mas uma era que estará para sempre carinhosamente guardada dentro de cada um que foi capaz de entender o que ela representou.

“Hogwarts will always be there to welcome you home.”

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Black Swan - Cisne Negro

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Black Swan, dirigido por Darren Aronofsky (Requiém de um Sonho) e trazendo Natalie Portman (Já não favorita, mas considerada certa para o Oscar de Melhor atriz) em um de seus melhores trabalhos, tem seu gênero caracterizado por muitos como "Terror psicológico", uma vez que engloba - de forma fascinante, devo dizer - todos os conflitos e esforços de Nina (Natalie Portman), uma talentosa e dedicada bailarina, em busca do seu conceito de perfeição.

Durante todo o filme nos é permitido avaliar a situação através do ponto de vista da protagonista e compartilhar diretamente das alucinações e da pressão pela qual a bailarina se submete a todo momento na árdua tarefa de interpretar tanto o "Cisne Branco" - A princesa do Lago dos cisnes, representada por uma índole dócil e de fácil comparação com a própria Nina - quanto o Cisne Negro, vilã do clássico, que passa a exigir uma exploração intensa e sensual.

Ao exigir o máximo de si para conseguir ambos os papéis, Nina acaba por se colocar nos extremos de cada vértice dessas personalidades, sobretudo a do Cisne Negro, o que a torna oponente direta de Lily, personagem de Mila Kunis (O livro de Eli), por sua vez aparentando ser a exata personificação deste, o que termina por redobrar a insegurança da protagonista, uma vez que se mostra possuidora todos os atributos dos quais Nina precisa para tornar-se "perfeita".

Os aspectos técnicos do filme também são merecedores de aplausos, com ênfase na fotografia belíssima - também indicada ao Oscar - e nos figurinos que chegam a ser inclusive condizentes com o ego de cada personagem.
Apenas Beth, a já decadente bailarina interpretada por Winona Ryder poderia ter tido pouco mais destaque, mas isso não chega a ser realmente um contra, uma vez que o brilhantismo do filme como um todo chega a ofuscar fatores como este.

Cisne Negro é um filme que trata sobre a insegurança e a busca incansável pela perfeição, tudo de forma tão perfeita quanto se pode ser.

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Post sugerido por Nym Machado, depois de quase dois meses sem atualizações. :)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

2011: Número auto-explicativo.

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Quem tem blog sabe: Chega um momento na vida do ser humano em quem precisamos postar qualquer porcaria. Nós temos essa porcaria... e nós não sabemos como iniciar o post.
Como devem ter notado, esse é exatamente o meu caso.

A "Porcaria" em questão é o fim do ano que se aproxima e, com a constatação desse fato, o gancho para todas as despedidas, retrospectivas, falsos votos de sucesso e realizações, mandingas e mimimi's em geral. Percebemos então que esse é o post dos mimimi's em geral.
É nele que eu pretendia instigar a ideia que as pessoas têm de que a virada do ano significa o desaparecimento de todos os problemas, o surgimento de novas oportunidades e a melhoria da vida em geral, tudo isso único e exclusivamente porque a terra concluiu sua volta em torno do sol.


[Insira aqui alguma imagem clichê de final de ano envolvendo queima de fogos e/ou garrafas de champagne, uma vez que aquela que vos fala cultiva uma enorme preguiça de fazê-lo]

Um ano novo realmente significa muito. Cultivar esperanças e expectativas em torno disso é um hábito tão saudável quanto inevitável, mas o que deve ser lembrado sempre é que não importa quantas queimas de fogos estejamos propensos a assistir: Crenças à parte, as coisas não mudarão em decorrência da cor da sua calcinha. Mudarão se fizermos por onde, e isso não possui nenhuma conexão com a virada do ano.

Acredito que coisas maravilhosas acontecerão para todos nós, mas novos problemas surgirão também, uma vez que tudo isso faz parte do ciclo natural da vida, mas desejo que aprendamos com eles ao máximo para que, daqui a exatos 365 dias imperfeitos, possamos estar novamente nesse clima nostálgico e lembrar com saudade do ano que ainda nem começou.

Por isso, não deixaria aqui meu post marcando o final de 2010 e desejando que "coisas boas aconteçam" na vida daqueles que me são estimados (porque, sinceramente, não saio distribuindo votos à toa) , mas esperando sinceramente que, em 2011, vocês possam fazer com que se concretizem.