Se estava imersa em leitura ou em pensamentos ociosos quando me bateu à porta, não me recordo bem, mas me lembro claramente dos olhos do Lirismo quando o convidei a entrar.
Convidei-o para um café, mesmo que fosse noite, mas – talvez por sofrer de insônia, talvez por não lhe apetecer o amargo da bebida – meu caro amigo preferiu um chá, que lhe foi servido na louça delicada da atenção que dedicamos às presenças que nos são valiosas.
Conversamos pela primeira vez sem trocar uma palavra sequer: Eu e meus pensamentos. Ele com seus versos.
Fui me acostumando aos poucos com seus hábitos banais, como o tempo que gastava encarando a réstia de sol que penetrava a janela mesmo que fechada, ou a forma como parecia estranhamente mais vivo quando as nuvens acusavam a chuva.
Adaptei-me à criptografia de suas confissões e passei a ouvir com certa clareza o som imaginário de seu riso.
Apaixonei-me, enfim, por seus olhos de papel e sussurros de rasura.
Meu amigo era inconstante: ou me cheirava a doçura e saudade, ou me agulhava com revolta, derramando mágoas e reclamações.
E seus gritos ocasionais, curiosamente intercalados entre o doce e o satírico, foram aos poucos me conquistando e me envolvendo numa espécie de vergonhosa dependência. Nossas reticências foram aos poucos se tornando exclamações.
Me perdi entre seus versos inconcebíveis e parágrafos de mentira, regidos sem maestria por pensamentos tranquilamente revoltos e inegavelmente paradoxais.
O único problema de nossa relação sempre consistiu num certo conflito de egos: Eu dominava a Poesia, ou dominava ela a mim?
Seguimos assim por um tempo, dominando um ao outro mesmo que sem nos permitir ceder. Eu precisando de suas palavras e ele dos meus pensamentos; Eu escondendo suas rimas e ele meus sentimentos.
Ocultávamos um ao outro em nosso relacionamento escondido, e vivíamos bem dessa maneira.
Até aquela manhã – daquelas raras manhãs chuvosas – quando o Lirismo me deixou sob uma de suas ameaças temperamentais: Ou é exposto, ou não é mais. E aqui estou, com nosso romance injustificado e publicado, deixando que este amigo de longas datas grite seu abstracionismo e sua falta de sentido, pois algumas explicações limitam. E irritam. A nós dois.





